No verão de 2016, um grupo masculino recém-estreado lançou seu primeiro single e o veredicto veio rápido: aquilo não era música pop. O refrão não grudava. O grave pesava. A melodia parecia resistir ativamente a ser lembrada. Qualquer review do NCT 127 tende a começar exatamente nesse ponto, porque a década seguinte se lê como uma resposta contínua àquele julgamento.
Cinco anos depois, em setembro de 2021, o terceiro álbum de estúdio do grupo, Sticker, chegou ao 3º lugar da Billboard 200. Na Coreia, vendeu 2.437.094 cópias segundo a Circle Chart. O que o grupo fez nesse intervalo não foi procurar um som que agradasse ao público, e sim se manter no mesmo lugar até que o público se acostumasse ao som que eles já tinham.

Em 24 de agosto de 2026, o NCT 127 lançou seu sétimo álbum de estúdio, BLINGY, marcando dez anos de estreia. Cinco integrantes vão subir ao palco.
1. Dez anos recusando soar familiar
A palavra que mais aparecia entre quem ouvia a música do NCT 127 pela primeira vez era “confuso”. Graves boom bap, sintetizadores distorcidos, metais e trap colidindo dentro da mesma faixa: aquilo estava no extremo oposto do que dominava o K-pop na época, que era o synth-pop leve e o tropical house. Mesmo dentro do fandom, as opiniões se dividiram.
O single de estreia “Fire Truck” e “Cherry Bomb”, de 2017, levaram essa proposta à sua forma mais pura. Os dois estavam mais perto do hip-hop pesado do que do pop, quase sem um trecho que um ouvinte casual conseguisse cantar junto. O tempo que o grupo levou para ganhar seu primeiro troféu em programa musical foi o preço dessa posição.
A virada veio com “Kick It”, em 2020. Construída sobre uma linha de baixo do hip-hop dos anos 1990 e embrulhada num conceito de artes marciais, a faixa gerou desafios de dança pelo mundo inteiro e segue sendo a mais tocada do grupo. Em agosto de 2026, ultrapassou 175 milhões de reproduções acumuladas no Spotify.
Um salto desse tamanho costuma levar a repetir a fórmula. O NCT 127 fez o contrário. O álbum que veio depois do estouro comercial foi Sticker, o disco mais divisivo da carreira deles. Uma flauta aguda atravessando a faixa-título, tratamento vocal exagerado, uma linha de baixo deliberadamente vazia: o lançamento abriu discussão dentro do próprio fandom. Esse álbum chegou ao 3º lugar da Billboard 200 e ficou 17 semanas na parada.
Tabela 1. Desempenho dos álbuns de estúdio do NCT 127 nas paradas
| Álbum | Lançamento | Billboard 200 | Circle Chart (acumulado) |
|---|---|---|---|
| Regular-Irregular | 2018 | 86º | 370.616 |
| Neo Zone | 2020 | 5º | 1.067.850 |
| Sticker | 2021 | 3º | 2.437.094 |
| 2 Baddies | 2022 | 3º | 1.994.316 |
| Fact Check | 2023 | 16º | 1.869.593 |
Ao resenhar 2 Baddies, a publicação musical britânica NME descreveu o grupo como “genre experimentalists with tremendous ambition” (experimentadores de gênero com uma ambição enorme). A frase funciona porque segura duas palavras ao mesmo tempo: experimental e ambicioso. A experimentação do NCT 127 nunca foi só uma questão de gosto. Vinha junto com um cálculo sobre entrar no maior mercado do mundo, e esse cálculo se mostrou certo.
2. A primeira subunidade fixa de um projeto feito para expandir
Entender o NCT 127 começa pelo nome. O 127 se refere à linha de longitude que passa por Seul.
Esse número entrou no nome por causa do que o NCT foi originalmente concebido para ser. Quando a SM Entertainment anunciou o projeto em 2016, o NCT não tinha limite de integrantes: se expandiria indefinidamente por meio de subunidades sediadas em cidades pelo mundo. Dentro desse desenho, o NCT 127 foi a primeira subunidade fixa, designada para Seul.
Cada subunidade recebeu um território bem distinto. O WayV, com base no mercado de língua chinesa, ficou com um pop mais polido. O NCT DREAM ficou com um conceito juvenil, luminoso e acessível. O que sobrou para o NCT 127 foi a faixa mais pesada e mais experimental. A proposta descrita na seção anterior foi menos uma série de decisões álbum a álbum do que o papel que essa subunidade recebeu desde o começo.

Em fevereiro de 2023, a SM reestruturou sua gestão e anunciou o fim da expansão aberta do NCT. A última subunidade a estrear foi o NCT WISH. Esse anúncio mudou o que o NCT 127 era: uma subunidade cuja formação podia mudar a qualquer momento passou a ser um time de formação fixa, construindo uma discografia própria.
A escala das turnês mostra o que essa subunidade acumulou por conta própria. A NEO CITY – The Origin, iniciada em 2019, passou por Ásia, América do Norte e Europa em 45 shows. A The Link reuniu cerca de 700.000 pessoas em 28 shows a partir de 2021, e a The Unity levou cerca de 417.000 a 19 shows a partir de 2023.
Algo parecido já havia acontecido na mesma gravadora. O aespa, recebido na estreia com a reação de que soava estranho, acabou segurando o primeiro lugar do Melon por 15 semanas: mais um caso de um grupo que sobreviveu à primeira impressão de não se parecer com nada existente.
3. O fandom que transformou uma polêmica em brincadeira
A cena mais citada em qualquer relato sobre o fandom do NCT 127 aconteceu logo depois do lançamento de Sticker.
Quando a flauta da faixa-título virou motivo de discussão, os fãs não escreveram defesas. Começaram a postar vídeos tocando aquela melodia na flauta doce. O TikTok se encheu de edições cômicas construídas em cima do mesmo som. Ao transformar em material de brincadeira uma polêmica que deveria ser abafada, atraíram gente que nem estava ouvindo a música, só para conferir de que ruído se tratava.

O fandom se chama NCTzen, nome definido por votação dos fãs em 12 de junho de 2017, combinando NCT com citizen. Os integrantes usam outro apelido para eles: Czennie foi proposto por Doyoung, com o sentido de serem tão preciosos quanto as quatro estações.
Gostar de uma música que divide opiniões virou, por si só, o que mantém esse fandom unido. Apoiar um grupo que recusa a opção comercialmente segura funciona dentro do fandom como uma forma de orgulho. Esse orgulho apareceu como número de vendas: 2 Baddies vendeu mais de 1,54 milhão de cópias na primeira semana em 2022, segundo a Hanteo Chart.
4. Ano dez, cinco pessoas
BLINGY, lançado em 24 de agosto de 2026, é o sétimo álbum de estúdio e marca o décimo aniversário do grupo. Traz nove faixas, e a canção-título é um hip-hop construído sobre sintetizadores distorcidos, bateria pesada e um refrão em forma de canto coletivo. Taeyong participou da criação da coreografia dela.
Cinco integrantes promovem este lançamento: Johnny, Taeyong, Yuta, Jaehyun e Haechan. Doyoung e Jungwoo estão cumprindo o serviço militar e não vão aparecer no palco.
O álbum, porém, não pertence só a cinco pessoas. As nove faixas foram feitas pelos sete integrantes que renovaram contrato juntos e, antes de se alistarem, Doyoung e Jungwoo gravaram com antecedência seus vocais para a faixa “127 Million Miles”. Cinco vão estar no palco, mas sete vozes ficaram no disco.

Haechan chamou este álbum de cinco e seus palcos de edição limitada, no sentido de que a formação de cinco acontece uma vez e não volta. Quando Doyoung e Jungwoo terminarem o serviço em junho de 2027, os sete vão se reunir de novo, o que deixa este álbum e esta turnê como os únicos registros que a formação atual vai produzir.
Essa turnê abre em Seul no dia 18 de setembro. A NEO CITY – The Redline, quinta turnê mundial deles, se estende por 15 shows até janeiro de 2027.
Dez anos atrás, quem chamou o som desse grupo de estranho provavelmente esperava que ele sumisse. Não sumiu, e grupos que estrearam depois hoje o tratam como referência. O palco em que cinco integrantes se apresentam no ano dez parece uma versão comprimida dessa década: nenhuma tentativa de preencher os lugares vazios, apenas apresentar o que dá para fazer agora.