K-pop

O que o KISS OF LIFE provou: um milagre nascido em uma empresa pequena

“Esse grupo aí — de que empresa é?”

Quando o grupo feminino KISS OF LIFE começou a chamar atenção, essa era a pergunta que mais circulava. Não era SM, não era JYP, não era YG, não era HYBE — era a S2 Entertainment. Uma empresa pequena cujo grupo feminino anterior tinha acabado. No K-pop, essa combinação costuma indicar uma largada em desvantagem.

Mais de 1,26 bilhão de streams acumulados no Spotify. Uma primeira turnê mundial com 45 shows em três continentes. Artista Revelação do Ano no Korean Music Awards (KMA). Troféus em mais de 14 premiações. 3,01 milhões de seguidores no Instagram, 2,1 milhões de inscritos no YouTube, 4 milhões de ouvintes mensais no Spotify. (Dados de agosto de 2026)

A imprensa coreana deu a elas um apelido — “o milagre da empresa pequena”. Mas quanto mais perto você olha para esse grupo, menos aquilo parece milagre e mais parece algo inevitável.

KISS OF LIFE Midas Touch concept photo featuring all four members in black outfits with red string on a red carpet
@KISS OF LIFE 공식 사이트

Raízes no R&B, atravessando gêneros

Para a maioria dos grupos femininos de K-pop, o R&B é “um gênero para experimentar uma vez”. Você coloca uma faixa de R&B no álbum e, no lançamento seguinte, volta para o EDM ou o hyperpop. Com o KISS OF LIFE é diferente. Da estreia até hoje, o R&B e o hip-hop americanos dos anos 1990 e 2000 são a raiz desse grupo, e todo álbum foi construído sobre essa base.

Da mistura de dance-pop, rock e R&B da estreia “Shhh” ao hip-hop de base rock de “Bad News”, ao funk psicodélico de “Nobody Knows”, ao pop nostálgico dos anos 2000 de “Midas Touch”, ao afrobeats de “Sticky”, ao acústico latino de “Get Loud” e ao punk Y2K de “Who Is She”, de 2026 — os gêneros seguem se expandindo, mas a raiz nunca se mexe. A NME escreveu sobre a B-side “Nobody Knows” que era “um R&B à altura dos clássicos do TLC dos anos 1990.”

KISS OF LIFE discography album covers from debut to Who Is She showing their musical evolution
@KISS OF LIFE 공식 앨범 커버

E boa parte dessa música vem das próprias integrantes.

Belle já era compositora profissional antes de virar idol. Como compositora contratada pela SM Entertainment, assinou créditos em “UNFORGIVEN”, do LE SSERAFIM, e em “Softly”, da Miyeon, do (G)I-DLE, e, segundo entrevista ao SBS News, tem mais de 1.000 faixas inéditas guardadas. Ela coescreveu e cocompôs a faixa de estreia “Shhh” e produziu sozinha sua solo “Countdown”. Natty coescreveu “Shhh” e criou a coreografia da própria solo “Sugarcoat” e, no álbum 224, de 2025, assinou as letras de “Tell Me” e “Painting”. Julie coescreveu “Bye My Neverland” e escreveu a letra de “Heart of Gold”. Haneul também coescreveu “Bye My Neverland”.

Uma frase que Belle deu ao The Korea Herald resume com precisão a identidade desse grupo: “A gente foi formada para ser um grupo que faz a própria música. Conseguir expressar da forma mais completa o que a gente quer dizer através da música — essa é a nossa força.”


Um grupo que canta de verdade enquanto dança

No K-pop, o “vocal ao vivo” foi ficando cada vez mais raro. Grupos capazes de entregar coreografia de alta dificuldade e vocal ao vivo ao mesmo tempo ficaram mais escassos a cada geração, e palcos apoiados em AR (playback com vocais gravados) viraram norma. O KISS OF LIFE vai na direção contrária dessa correnteza.

A resenha da NME sobre o show de março de 2025 em Londres colocou assim: “O oposto exato da sobrecarga visual de um show típico de K-pop. Em um palco despido de ornamentos, o talento ficou no centro.” A Music Connection, cobrindo o show de Los Angeles, chamou o grupo de “uma força e tanto.” Uma avaliação no Ticketmaster, escrita por alguém que não acompanha K-pop, foi mais direta: “Esse grupo é muito bom, elas realmente sabem cantar!”

KISS OF LIFE performing 'Who Is She' live on stage, holding microphones while dancing with backup dancers
@KISS OF LIFE 공식 유튜브

O fato de as quatro integrantes terem pontos fortes bem distintos é outro motivo para o palco desse grupo ser tão convincente.

Belle é a main vocal, com alcance que vai do E♭3 até o F6 no registro whistle. Os adlibs improvisados que ela solta nos encores dos shows viralizam com frequência, e um crítico do Asian Blooming observou que ela “lida com notas altas e whistles como se não fossem nada”. Natty é a main dancer, com mais de uma década de treinamento. Sua solo “Sugarcoat” passou de 125 milhões de streams no Spotify, superando várias das faixas-título do grupo. Julie é a main rapper e líder, ex-contratada da The Black Label, da YG. A cadência relaxada do rap dela sustenta a identidade hip-hop do grupo. Haneul, a maknae, foi descoberta por DM no Instagram e treinou cerca de um ano antes da estreia. O arremesso de honra que ela fez em um jogo da KBO League em 2025 acumulou 11 milhões de visualizações no Instagram Reels e 16 milhões no YouTube Shorts, provando que o alcance dela vai além da música.

Os shows do KISS OF LIFE têm marcas registradas que se repetem. A KISSY Chair, em que uma única pessoa da plateia é levada ao palco durante “Nobody Knows”. Um set em tributo a Amy Winehouse. Apresentações com banda ao vivo. A cenografia deliberadamente minimalista da turnê mundial Kiss Road — palco preto, poucos telões — era mais uma expressão da mesma postura consistente. Uma declaração: a gente mostra com competência, não com espetáculo.


A liberdade que as limitações criaram

O grupo feminino anterior da S2 Entertainment, o Hot Issue, acabou sem causar muito impacto. Quando o KISS OF LIFE estreou em julho de 2023, o mercado de K-pop era um oligopólio em que grupos fora das chamadas “Big 4” (HYBE, SM, JYP e YG) tinham dificuldade até para conseguir espaço básico na TV. As vendas do dia da estreia na parada da Hanteo: 759 cópias.

E, ainda assim, essa desvantagem estrutural acabou virando força, por contradição.

Sem o capital e a infraestrutura de uma grande empresa, o KISS OF LIFE precisava vencer pela qualidade do próprio conteúdo. A estratégia desenhada pelo diretor criativo Lee Hae-in (que já estava por trás de Produce 101 e Idol School) era clara — viralizar pela competência. Quando as apresentações no It’s Live revelaram vocais muito acima do que novatas costumam entregar, a imprensa coreana começou a chamá-las de “monster rookies”, e os fandoms internacionais chegaram rápido pelos vídeos de “comparação de vocal ao vivo”.

Os números contam a história do sucesso dessa estratégia.

Lançamento Data Vendas na 1ª semana Vendas totais
Kiss of Life (1º EP) 2023.07 ~5.000 ~25.665
Born to be XX (2º EP) 2023.11 ~37.000 ~59.092
Midas Touch (1º single) 2024.04 ~69.659 ~100.607
Lose Yourself (3º EP) 2024.10 ~91.922 ~120.259
224 (4º EP) 2025.06 ~102.519
Who Is She (2º single) 2026.04 ~71.270

Do EP de estreia até Lose Yourself, as vendas de primeira semana cresceram cerca de 18 vezes (Hanteo, Hankyung 2024.10)

“Who Is She” chegou ao nº 4 na parada semanal de álbuns da Circle e ao nº 6 na World Digital Song Sales da Billboard, e o clipe passou de 15,67 milhões de visualizações em 48 horas desde o lançamento. A música entrou nas paradas simultaneamente na Tailândia (nº 2 no iTunes), no Brasil, em Taiwan e na Turquia.

A trajetória no digital segue a mesma linha. No verão de 2024, o single “Sticky” chegou ao nº 87 da Billboard Global 200 e ao nº 3 da parada digital da Circle, abrindo o caminho comercial do grupo. Mas o mais interessante é a B-side “Igloo”, que superou todas as faixas-título com 229 milhões de streams no Spotify. Quando uma faixa que não é título supera um catálogo inteiro de faixas-título, isso quer dizer que o consumo em streaming está sendo puxado pela música em si, e não pela promoção das faixas de trabalho.

Esse crescimento chegou a um nível que a indústria não pôde mais ignorar. Em entrevista ao Star News em 2026, as integrantes revelaram que receberam a primeira distribuição de lucros — um marco de independência financeira que grupos de empresas pequenas raramente alcançam. O booking global delas é feito pela Wasserman Music, agência que também representa Ed Sheeran e SZA.

KISS OF LIFE on stage in front of a packed audience during the Kiss Road world tour Seoul Encore
@KISSOFLIFE_S2 공식 X

SWEAT: o terceiro verão

KISS OF LIFE members in red styling for the SWEAT Ignite concept photo, with DON'T LET THEM SEE YOU SWEAT lettering on the wall behind them
@KISSOFLIFE_S2 공식 X

O verão é um palco que esse grupo construiu para si mesmo.

Em julho de 2024, “Sticky” trouxe ao mesmo tempo a primeira vitória em programa musical e o pico de nº 87 na Billboard Global 200. No ano seguinte, “Lips Hips Kiss”, do quarto EP 224, deu sequência ao embalo. Foi mais ou menos aí que a imprensa coreana começou a chamá-las de rainhas do verão.

Mas esse rótulo não veio simplesmente de lançar músicas com conceito de verão. Em 24 de julho de 2026, subindo ao palco ao ar livre do WATERBOMB Seoul pelo terceiro ano seguido, o que elas escolheram apresentar foi uma faixa inédita. Em condições próximas do pior cenário possível para som ao vivo — água jorrando de todos os lados —, elas tiraram “SWEAT” da cartola antes de qualquer pessoa ter ouvido um segundo da música. Um grupo que sempre competiu pela performance ao vivo escolheu justamente o cenário em que essa força é mais difícil de forjar.

A versão oficial daquele palco chega em 4 de agosto, às 18h (horário da Coreia). O terceiro single album delas, SWEAT, vem em três versões físicas: Heat, Burn e Poca. Um trecho de prévia divulgado em 20 de julho foi seguido, na sequência, por concept photos feitas em cenários de deserto vermelho e cinzas vulcânicas e, depois, por um trailer construído sobre imagens térmicas. Uma textura diferente do verão limpo e refrescante de 2024.

Natty disse à Billboard lá em 2024: “A gente queria mostrar para todo mundo a nossa tradução do verão! O lado fresco e refrescante, e também o lado quente!” Alinhe as respostas que esse grupo deu ao verão ao longo de três anos e aquilo soa menos como um comentário e mais como uma previsão.

Voltemos à pergunta do começo. “Esse grupo aí — de que empresa é?” Três anos depois, a resposta mudou. De que empresa elas são já não importa. O que importa é o que elas mostram no palco.