K-pop

BOYNEXTDOOR: como os rapazes da casa ao lado deitaram a porta abaixo

Quando os BOYNEXTDOOR se estrearam em maio de 2023, a receção foi morna. Ainda antes da estreia, o grupo já carregava uma alcunha trocista — «Boyjeans», uma versão masculina das NewJeans —, e o seu primeiro lançamento não conseguiu deixar uma marca a sério nas tabelas digitais da Coreia. Também havia dúvidas: não seriam apenas mais um grupo de «idols fabricados», a viver à sombra do prestígio de uma editora gigante (HYBE) e de um produtor estrela como Zico?

Os seis membros dos BOYNEXTDOOR reunidos atrás do para-brisas de um carro numa estrada à noite, a olhar para a câmara, numa fotografia de conceito de HOME: DELUXE
Fotografia conceptual de HOME: DELUXE (OVERDRIVE ver.) © KOZ Entertainment

Três anos depois, esse arranque morno foi reescrito como uma das histórias de superação mais convincentes do K-pop. O repackage HOME: DELUXE, lançado a 28 de setembro de 2026, é a cena mais recente desse percurso. Os rapazes da casa ao lado não bateram à porta com delicadeza. Deitaram-na abaixo.

Três anos em números

  • Quatro álbuns seguidos com mais de um milhão de cópias — O primeiro álbum de estúdio do grupo, HOME, lançado em junho de 2026, vendeu 1.085.715 cópias na primeira semana segundo o Hanteo Chart e tornou-se o quarto álbum consecutivo do grupo a ultrapassar um milhão, depois de 19.99, No Genre e The Action. Contando apenas as vendas da primeira semana, já são três lançamentos seguidos acima de um milhão, a partir de No Genre.
  • 16.º lugar na Billboard 200 — HOME alcançou a melhor posição da carreira do grupo na tabela de 27 de junho de 2026. A partir do primeiro EP, WHY.., já são seis álbuns seguidos na Billboard 200.
  • Primeira digressão mundial por 24 cidades — A KNOCK ON Vol.2 arrancou em julho de 2026 com três noites de bilhetes esgotados no KSPO Dome, em Seul.
  • Mil milhões de streams no Spotify — As reproduções acumuladas de tudo o que o grupo já lançou ultrapassaram os mil milhões no início de agosto de 2026.

A primeira arma que quebrou o preconceito: um grupo que escreve a sua própria história

A razão mais decisiva para os BOYNEXTDOOR se terem livrado do rótulo de «idols fabricados» é o controlo criativo que os membros detêm. Jaehyun, Taesan e Woonhak conquistaram créditos de letra e composição logo a partir do single álbum de estreia, WHO!, e, no segundo EP, HOW?, escreveram e compuseram grande parte das faixas, levando diretamente para a música a sua verdadeira forma de falar.

O apetite de Taesan pela escrita passou a simbolizar a identidade do grupo. Como contou à Weverse Magazine: «Devo ter umas 100 músicas em que trabalhei guardadas no portátil. Está lá tudo, desde antes da estreia até agora — para mim é uma espécie de diário». A Billboard captou o mesmo espírito na reportagem K-Pop Rookie of the Month de outubro de 2024, ao descrever a «criatividade coletiva» do grupo, «em que os membros podem contribuir em diferentes áreas, como a música, a narrativa, a coreografia, a direção de palco e muito mais», sem papéis fixos.

Esse círculo continuou a alargar-se. Leehan, que se mantinha algo afastado do processo de escrita, obteve o seu primeiro crédito como letrista no quinto EP, The Action, e, no álbum de estúdio de 2026, HOME, os seis membros surgem creditados como letristas e compositores. O retrato fica completo: não são intérpretes presos ao plano de uma editora, mas um coletivo de criadores que conduz a narrativa de um álbum inteiro.

Membros dos BOYNEXTDOOR com microfones e auscultadores enquanto trabalham em música no estúdio
Os BOYNEXTDOOR durante a produção de 19.99 © KOZ Entertainment

A alcunha que nasceu da voz ao vivo: 100% microfone na mão

Entre os fãs, os BOYNEXTDOOR têm uma alcunha coreana — «mit-bonek», qualquer coisa como «os BOYNEXTDOOR que se podem ver ao vivo com toda a confiança». A razão é simples. Mesmo com coreografias exigentes, fazem questão de usar microfones de mão e recusam-se a apoiar-se em vozes pré-gravadas.

As provas de fogo foram os grandes festivais ao ar livre e os concertos em nome próprio. Em agosto de 2025, o grupo foi convidado para o Lollapalooza, em Chicago, o maior festival de música do mundo, onde apresentou um alinhamento de uma hora com onze músicas, acompanhado por uma banda ao vivo.

O final da primeira digressão, KNOCK ON Vol.1, que terminou no KSPO Dome, em Seul, em julho desse ano, é igualmente revelador. Ao longo de três dias, perante cerca de 33 mil fãs, rearranjaram todo o alinhamento para banda ao vivo e preencheram cerca de três horas. Foi um palco que provou a musicalidade do grupo, e não apenas a encenação.

Os BOYNEXTDOOR a atuar ao vivo em palco com microfones de mão num concerto
Os BOYNEXTDOOR em palco no KNOCK ON Vol.1 FINAL © KOZ Entertainment

Quotidiano em vez de metaverso: um universo assente na realidade

Numa época em que superpoderes, vampiros e ficção científica se tornaram o cenário por defeito dos universos do K-pop, os BOYNEXTDOOR escolheram a direção oposta. O seu universo não é uma grande construção ficcional — é o próprio quotidiano. O primeiro amor, as separações, a amizade, as dores de crescimento dos vinte e poucos anos, contados numa linguagem crua e coloquial.

Os primeiros lançamentos, WHO!, WHY.. e HOW?, formaram uma única «trilogia do primeiro amor». Retrataram o nervoso miudinho de se apaixonar (WHO!), uma primeira separação inesperada (WHY..) e a confusão entre ambos (HOW?) numa ordem não linear. A equipa de produção da KOZ explicou que pretendia «ligar os álbuns físicos, os videoclipes e as letras como uma série de televisão» — até as descrições das faixas foram escritas para se lerem como os resumos de episódios que aparecem por baixo das miniaturas da Netflix.

As experiências narrativas foram-se tornando cada vez mais elaboradas. No quinto EP, The Action, os membros assumiram os papéis de uma equipa de cinema fictícia a concorrer ao Chicago Film Festival, num formato de falso documentário. Reutilizando a mesma roupa que vestiram ao voar para Chicago e mantendo um site e um blogue com mapas de satélite, entrelaçaram realidade e ficção numa campanha transmédia que tem sido elogiada como um passo em frente no planeamento do K-pop.

Membros dos BOYNEXTDOOR sentados juntos num campo, envoltos no mesmo cobertor, numa fotografia de conceito de tom lírico
Fotografia conceptual do primeiro EP WHY.. (Moody ver.), parte da trilogia First Love © KOZ Entertainment

ONEDOOR, o fandom global — e a primeira digressão mundial

O fandom oficial dos BOYNEXTDOOR chama-se ONEDOOR — a única porta que conduz aos artistas e o aliado fiel sempre ao seu lado. A forma como comunicam com este fandom põe a formalidade de parte em favor de uma proximidade intensa. Nos conteúdos de variedades e de bastidores, a imagem polida de idol dá lugar à realidade sem filtros de rapazes de vinte e poucos anos a trocar memes e ad-libs. Ultrapassar os mil milhões de visualizações acumuladas no YouTube apenas com vídeos próprios e promocionais — sem contar os videoclipes — é sinal de que o seu alcance vai além do streaming pontual.

Os fanchants também são distintivos. Em vez de se limitarem a acompanhar a letra, são construídos como trocas de chamada e resposta entre a deixa dos artistas e a resposta do público — um recurso que traz a plateia para dentro como quem completa o palco, e não como mero espectador.

O peso deste fandom está nos números. Os ouvintes mensais dos BOYNEXTDOOR no Spotify ultrapassaram pela primeira vez os quatro milhões em julho de 2026, e o canal de YouTube conta com cerca de 2,49 milhões de subscritores. No Japão, um single lançado em agosto de 2025 chegou ao topo da tabela semanal da Oricon e, em junho de 2026, HOME liderou a tabela semanal de álbuns da Oricon — o quarto n.º 1 do grupo no país.

Depois, em julho de 2026, todo esse impulso convergiu na primeira digressão mundial em nome próprio, KNOCK ON Vol.2. Os três concertos no KSPO Dome, em Seul, esgotaram apenas na pré-venda para fãs, reunindo mais de 31.800 pessoas, e seguiram-se lotações esgotadas em Busan, em Osaka, Nagano e Chiba, no Japão, em Taiwan e em Hong Kong — com datas adicionais em Busan, Taiwan e Hong Kong.

Os seis membros dos BOYNEXTDOOR na frente do palco, com o KSPO Dome cheio e iluminado a azul atrás deles
Os BOYNEXTDOOR no KNOCK ON Vol.2 em Seul, KSPO Dome, julho de 2026 © KOZ Entertainment

O capítulo atual: deitar a casa abaixo para a voltar a construir

O dia 19 de julho de 2026 foi a última noite da etapa de Seul da digressão mundial. Os concertos foram concebidos em torno do conceito de os membros e ONEDOOR construírem juntos um «lar» — e, nessa última noite, os membros gritaram do palco que iriam deitar abaixo a casa que tinham construído juntos, remodelá-la e voltar. Dois meses depois, a 28 de setembro, os BOYNEXTDOOR regressaram com HOME: DELUXE, um repackage que junta cinco músicas às nove do seu primeiro álbum de estúdio, HOME. A mensagem do dia do lançamento também falava da casa: «Construímos a nossa própria casa com o primeiro álbum de estúdio, por isso agora queremos fazer uma festa com toda a gente». A direção anunciada pela editora aponta no mesmo sentido: ir além do espaço familiar de «HOME» e alargar o seu leque musical com novas perspetivas e emoções.

O tema-título, «ANIMAL», é a primeira incursão do grupo no eletrofunk. Sobre uma batida forte, o refrão repete «Move like animal», comparando a vontade de avançar incansavelmente rumo ao que se deseja ao movimento de um animal. Um verso como «passo o sinal vermelho ao eu de ontem» vai no mesmo sentido. Em maio, Taesan disse numa entrevista que, da próxima vez, gostaria de experimentar algo mais intenso e poderoso. O tema-título que chegou quatro meses depois segue exatamente nesse sentido. O grito do refrão nasceu na plateia: Taesan contou que adorou o «Whop Whop!» que os fãs gritavam em apoio ao grupo nos concertos nos Estados Unidos e quis levar esse «som animal» para a música. Zico contribuiu para a letra, enquanto Jaehyun, Taesan e Woonhak estão creditados como letristas e compositores em «ANIMAL» e «CLICHE» e como compositores em «400 Years». Somando a versão coreana de «Count To Love», Taesan está creditado em todas as faixas acrescentadas, exceto «Boom Boom Boom». Riwoo, que criou a coreografia do refrão, obteve pela primeira vez um crédito de coreografia. Escrever as próprias músicas e dar forma ao próprio palco — essa maneira de trabalhar mantém-se, mesmo quando saem porta fora.

A forma como anunciaram o comeback também tem a marca do grupo. Os membros que interpretaram uma equipa de cinema fictícia em The Action transformaram-se agora num pinguim, numa coruja, numa formiga, num lama, numa preguiça e num pombo em «The Animals», um falso documentário sobre «pessoas que acreditam ser animais». Também no videoclipe, os seis atravessam em correria espaços do dia a dia — uma rua residencial, um estaleiro de obras, um casamento ao ar livre, uma fonte — como animais guiados pelo instinto. Sungho explicou que não pararam de correr de uma filmagem para a seguinte, entre Daejeon, Paju e Incheon, e que uma cena em que abrem caminho por entre as pessoas num mercado pretendia transmitir uma sensação de libertação. Misturar realidade e ficção para abrir a porta a uma história é algo que passou de um álbum para o seguinte.

Das cinco novidades, duas são músicas inéditas — «ANIMAL» e o tema disco «CLICHE» —, enquanto as outras três são canções que os fãs já conheciam. «Boom Boom Boom», single digital japonês lançado em agosto, entra no álbum no original em japonês, e «Count To Love», single japonês cantado pela primeira vez em coreano no encore dos concertos de Seul, surge na versão coreana. «400 Years», a primeira fan song do grupo, que até então só tinha sido partilhada no YouTube, em janeiro de 2024, teve o seu primeiro lançamento oficial dois anos e oito meses depois — um agradecimento a ONEDOOR construído em torno do verso «Fica comigo só por 400 anos». Músicas que chegaram primeiro aos fãs nas salas de concerto e através de um ecrã encontraram agora o seu lugar no álbum.

E, um mês depois da chegada do álbum, voltam a sair porta fora. Começando em Dallas a 30 de outubro e passando por Nova Iorque, Toronto e Los Angeles até à Cidade do México a 24 de novembro, será a primeira digressão do grupo como cabeça de cartaz na América do Norte, por dez cidades. A propósito do lançamento, os membros disseram qual o rótulo que mais querem ouvir: «idol de performance». O público norte-americano que respondeu «BOYNEXTDOOR!» a «Who’s there?» no Lollapalooza de 2025 vai agora encontrá-los em palcos que levam apenas o nome do grupo. A digressão continua até Banguecoque em janeiro de 2027. Depois de construírem uma casa, a deitarem abaixo e a voltarem a erguer, os rapazes da casa ao lado têm outra porta à sua frente — e valerá a pena ver qual abrirão a seguir.